AS* PAPANGUS, 2022

Ato I, performance no Bananal Arte e Cultura Contemporânea, São Paulo/SP.

Qual é o espaço para os nossos corpos na cidade, nas ruas, e nos carnavais? Quando o corpo da mulher é considerado público ou privado? Qual a qualidade desses corpos nestes dois lugares? O que eles enfrentam e quando eles se deleitam? Quem tem direito ao anonimato festivo e quem faz a segurança durante essa possibilidade de prazer no coletivo?

 

Estas e muitas outras perguntas acompanharam o processo de construção da performance AS* PAPANGUS, idealizada pela artista Bruna Amaro. Dividida em dois atos que ocorreram em São Paulo, abril 2022, e Berlin, maio de 2022, participaram desse processo um grupo de mais de 50 mulheres. Para os dois atos foram propostos encontros que antecederam a performance com o objetivo de pensar e estruturar o que as motivam e as fortalecem a estar nas ruas num cortejo festivo. As vestimentas e máscaras utilizadas pelos dois grupos têm como referência inicial a figura dos Papangus  - que teve sua origem na cidade de Bezerros, Pernambuco  - mas traz uma nova perspectiva pensando estes corpos-bandeiras como expressão de desejos e presença numa sociedade que os violenta diariamente.
 

O Brasil ocupa hoje o 5º lugar onde mais se matam mulheres no mundo, o 1º quando estas são mulheres trans. A base de números sobre a violência de gênero no país e o seu aumento em 20% no período do carnaval foi um dos disparadores para a artista pensar na criação de um momento suspenso mas presente em que mulheres pudessem viver as ruas, os seus corpos e seus desejos. 

Nas vestimentas costuradas pela artista e sua mãe, Eliana Amaro dos Santos, as performers foram convidadas a pensarem em palavras-desejos, que foram bordadas à mão por cada uma delas. As vestimentas usadas em São Paulo foram levadas para Berlin para compor a videoinstalação AS* PAPANGUS  - our carnival, our bodies, our fight. Como em São Paulo, as participantes de Berlin foram convidadas a escolherem e bordarem suas palavras-desejos. As vestimentas carregam hoje palavras em português, inglês, alemão, curdo, azeri e koreano. 

A performance é um exercício de construção de um novo imaginário, onde um grupo de mulheres propõe uma presença física contrária à sexualização de seus corpos, e preenche o espaço público de maneira coletiva e festiva. Ela revelou-se também como uma ferramenta de conexão entre mulheres ao redor do mundo e de compartilhamento dos lugares em que seus corpos se diferenciam e se conectam.

foto: Maria Clara Loureiro
 

Para a exposição em Berlin a artista e a curadora Dami Choi preparam também uma série de conteúdos relacionados à violência de gênero no Brasil que foram compartilhados nas redes sociais da instituição e criaram um espaço na exposição onde artigos e livros estão disponíveis para a consulta pelos visitantes.

A performance AS* PAPANGUS é um projeto comissionado pela instituição Oyoun | Kultur NeuDenken gUG e teve o apoio do Goethe-Institut.

AS* PAPANGUS - our carnival, our body, our fight, 2022
exposição individual e Ato II da performance no Oyoun Kultur NeuDenken gUG, Berlin/DE.

“AS* PAPANGUS by Bruna Amaro
our carnival, our body, our fight

In October 2019, in the city of Bezerros located in the countryside of Pernambuco, Brazil, I met Papangus. The Papangu mask has been part of the Pernambuco imagination for at least a century and is activated by the people on the streets during the carnival, complemented by a full-body costume. The residents of Bezerros say that the mask was used by men to play the carnival hidden from women*, that they dressed up in Papangu and partied without being recognized. Where, in this popular imagination, are the Papangu women*?

"AS* PAPANGUS de Bruna Amaro
nosso carnaval, nosso corpo, nossa luta

Em outubro de 2019, na cidade de Bezerros localizada no interior de Pernambuco, Brasil, conheci os Papangus. A máscara de Papangu faz parte do imaginário pernambucano há pelo menos um século e é acionada pelas pessoas nas ruas durante o carnaval, complementada por uma fantasia de corpo inteiro. Os moradores de Bezerros contam que a máscara era usada pelos homens para brincar o carnaval escondido de suas mulheres, se fantasiando de Papangu e festejando sem serem reconhecidos. Onde, nesse imaginário popular, estão as mulheres* Papangu?
 

AS* PAPANGUS is a carnival for, by and with women* that does not objectify any marginalized body.

In AS* PAPANGUS, the Afro-Brazilian artist Bruna Amaro performs a carnival in its most queer-feminist and decolonial form, with more than 50 women* in São Paulo and Berlin. Under the Papangu masks, facial identities fade away and a collective body appears. This body is a battlefield for survival, resistance and rebuilding. AS* PAPANGUS is a coming-together of women* fighters to honor and celebrate their life and survival.

In this participatory project, a series of performance workshops lays ground for the following acts. During the two-day workshop in São Paulo, the artist and the participants collectively build up
movements and statements for their street performance. Phrases manifesting experiences of survival, transformation and labor, are embroidered on the costumes handmade by Bruna Amaro and her mother Eliana Amaro dos Santos.

In the street performance on April 10, 40 women* walk down the streets of São Paulo with the Papangu clothes on, with the statements on their chest, braced with handcrafted props, and dancing to the festive music. As they let their bodies speak, the bodies become flags of triumph.

 

In the following multimedial exhibition at Oyoun Berlin from April 30 to May 27, the video documentation of the carnival performance in São Paulo will be projected on the costumes and masks.
The costumes from São Paulo are revived by 10 women* in Berlin, who participate in a two-day workshop and in the following street performance in the neighborhood of Oyoun. The procession on the streets of Berlin-Neukölln invites other FLINTA persons to join the walk.

AS* PAPANGUS é um carnaval para, por e com mulheres* que não objetifica nenhum corpo marginalizado.

Em AS* PAPANGUS, a artista afro-brasileira Bruna Amaro realiza um carnaval em sua forma mais queer-feminista e decolonial, com mais de 50 mulheres* em São Paulo e Berlim. Sob as máscaras de Papangu, as identidades faciais desaparecem e surge um corpo coletivo. Este corpo é um campo de batalha pela sobrevivência, resistência e reconstrução. AS* PAPANGUS é um encontro de mulheres* lutadoras para honrar e celebrar sua vida e sobrevivência.

 

Neste projeto participativo, uma série de oficinas de performance estabelece as bases para os seguintes atos. Durante o workshop de dois dias em São Paulo, a artista e as participantes constroem coletivamente movimentos e palavras-desejos para sua performance de rua. Palavras-desejos que manifestam experiências de sobrevivência, transformação e trabalho, são bordadas nas vestimentas  feitos à mão por Bruna Amaro e pela sua mãe Eliana Amaro dos Santos.

Na performance de rua do dia 10 de abril, 42 mulheres* desfilam pelas ruas de São Paulo vestidas com a roupa do Papangu, com as declarações no peito, armadas com adereços artesanais e dançando ao som da música festiva. Ao deixarem seus corpos falarem, os corpos se tornam bandeiras de triunfo.

Na próxima exposição multimídia na Oyoun Berlin, de 30 de abril a 27 de maio, a documentação em vídeo da performance carnavalesca de São Paulo será projetada nas fantasias e máscaras.
Os figurinos paulistas são revividos por 10 mulheres* em Berlim, que participam de uma oficina de dois dias e da seguinte performance de rua no bairro do Oyoun. A procissão nas ruas de Berlin-Neukölln convida outras pessoas da FLINTA a se juntarem à caminhada.

foto: Natascha Gass
foto: Natascha Gass

I understand the Papangu mask as an object that covers the face and the body, in direct reference to some cultures of the West of the African continent — such as the Geledes of Yoruba people, and the Bobo people in Burkina Faso. I also think of it as a magical and powerful object, as in the Noh and Balinese theaters — the trigger of incarnation. We will activate the Papangu mask, while we celebrate our covered faces and exposed bodies, claiming the right for festive anonymity.

In patriarchal societies, men are often given the exclusive right to perform on stage, to wear masks as an performative tool and as an outlet for artistic expression — as in Bezerros tradition where only men used to wear the Papangu masks. Through AS* PAPANGUS, Bruna Amaro questions: who gets to be anonymous, who gets to be free from social norms, who gets to indulge in the moment of liberation? Papangu women* on the streets of São Paulo and Berlin reclaim the rights to mask themselves while enlivening its magical power.

AS* PAPANGUS critically engages with the colonial matrix of carnival, staying alert to oppressive gaze and disallowing exploitation of queer bodies, bodies of women*, of color, with disabilities, and the bodies under structural oppression. Papangu women* do not walk down the streets to be consumed, they walk to celebrate themselves.

AS* PAPANGUS opens the first chapter of Oyoun’s curatorial focus Mightier than a Trampled Flower, which centralizes life of women* in wars from a decolonial context and deconstructs the canonical narratives of women* in war."

AS* PAPANGUS is supported by 
Goethe-Institut São Paulo.

Text by the curator Dami Choi.
 

Entendo a máscara Papangu como um objeto que cobre o rosto e o corpo, em referência direta a algumas culturas do oeste do continente africano — como as Geledés do povo iorubá, e o povo Bobo de Burkina Faso. Também penso nela como um objeto mágico e poderoso, como nos teatros Noh e balinês – um gatilho da encarnação. Ativaremos a máscara de Papangu, enquanto celebramos nossos rostos cobertos e corpos expostos, reivindicando o direito ao anonimato festivo.

Nas sociedades patriarcais, os homens muitas vezes têm o direito exclusivo de se apresentar no palco, usar máscaras como ferramenta performativa e como saída para a expressão artística – como na tradição de Bezerros, onde apenas os homens usavam as máscaras de Papangu. Através ds AS* PAPANGUS, Bruna Amaro questiona: quem consegue ser anônimo, quem consegue ser livre das normas sociais, quem consegue se entregar ao momento da libertação? As mulheres papangu* nas ruas de São Paulo e Berlim reivindicam o direito de se mascarar enquanto vivificam seu poder mágico.

AS* PAPANGUS se engaja criticamente com a matriz colonial do carnaval, mantendo-se alerta ao olhar opressor e não permitindo a exploração de corpos queer, corpos de mulheres*, de mulheres racializadas, com deficiência e corpos sob opressão estrutural. As mulheres papangu* não andam pelas ruas para serem consumidas, elas andam para celebrarem elas mesmas.

AS* PAPANGUS abre o primeiro capítulo do foco curatorial do Oyoun Mightier than a Trampled Flower, que centraliza a vida das mulheres* nas guerras a partir de um contexto decolonial e desconstrói as narrativas canônicas das mulheres* na guerra."

AS* PAPANGUS é apoiado pelo 
Goethe-Institut São Paulo.

Texto da curadora Dami Choi.
 

Performers São Paulo: Thais Aline Ferreira Lúcio da Silva, Flávia Fernandes Belletati, Carmen Cardoso Garcia, Ana Paula da Paz Alves, Juliana Bueno, Iasmin Souza Ribeiro, Larissa Maranho, Clarissa Teixeira Ximenes, Anelise Torres Blanco, Camila de Sousa Trindade, Gabriela Bergamasco, Ana Luiza Chieffi, Iara Santa Clara Coutinho, Graciela Pereira Cruz Soares, Mariana Queiroz da Silva, Melissa Menezes, Gabriela Zuculin, Andressa Arena da Silva, Núria Cordeiro Vieira, Tatiana Burg Mlynarz, Tereza Ferreira Zolli, Verônica Borges Carneiro da Conceição, Gabriela Raphael Duarte, Roseli de Lima Santos, Maíra de Souza Oliveira, Tatiana Cristina de Argenton e Queiroz, Alessandra Cristiane de Mello, Natália Onori Ferraz, Paula Montes, Ana Lucia da Silva Santos, Jucilene Braga Rodrigues, Julia Lima, Nyx Helena Tunes Zampieri, Lourdes Arasy Benítez Espinola

Colaboradoras São Paulo: Eliana Amaro dos Santos (Seamstress), Paula Correa Pedroso (Producer), Yve Zolli Nolasco (Producer), Fernanda Andrade (Videographer), Suellen Santana Amaral (Videographer), Cássia Roberta Araújo de Oliveira (Photographer), Maria Clara Silva Loureiro (Photographer)

Performers Berlin: Pamela Bassi, Natalia Aly, Mizgina Rengin, Mayara Teston Barrios, Katia Akemi, Jarita Freydank, Fatima Ismayilova.

Colaboradoras Berlin: Yuki Kojima (Fabric installation in the staircase), Thais Nepomuceno (Videographer), Natascha Gass (Photographer).

AS PAPANGUS

 8', 2022

a performance by Bruna Amaro

 

camera, montage, and direct sound

Fernanda Andrade

Suellen Santana Amaral

 

Performers

Jucilene Braga Rodrigues

Juliana Bueno

Julia Lima

Larissa Maranho

Lourdes Arasy Benítez Espinola

Maíra de Souza Oliveira

Mariana Queiroz da Silva

Natália Onori Ferraz

Núria Cordeiro Vieira

Nyx Helena Tunes Zampieri

Paula Montes

Roseli de Lima Santos

Sabrina Gomes

Tatiana Burg Mlynarz

Tatiana Cristina de Argenton e Queiroz

Tereza Ferreira Zolli

Thais Aline Ferreira Lúcio da Silva

Verônica Borges Carneiro da Conceição

 

Videomakers

Fernanda Andrade

Suellen Santana Amaral

 

Photographers

Cássia Roberta Araújo de Oliveira 

Maria Clara Loureiro

As* Papangus is supported by the Goethe-Institut São Paulo.

Presented by Oyoun as part of the Mightier than a Trampled Flower.

Adriana Marinho de Carvalho

Alessandra Cristiane de Mello

Aline Salton de Paula

Ana Luiza Chieffi

Ana Lucia da Silva Santos

Ana Paula da Paz Alves

Andressa Arena da Silva

Anelise Torres Blanco

Camila de Sousa Trindade

Carmen Cardoso Garcia

Clarissa Teixeira Ximenes

Flávia Fernandes Belletati

Gabriela Bergamasco

Gabriela Raphael Duarte

Gabriela Zuculin

Graciela Pereira Cruz Soares

Iara Santa Clara Coutinho

Iasmin Souza Ribeiro

Seamstress assistant

Eliana Amaro dos Santos

 

Producers

Paula Correa Pedroso  

Yve Zolli Nolasco